O primeiro tributo português à
obra de Joni Mitchell foi uma aposta ganha. Nem mesmo alguns desacertos
macularam o essencial: uma grande ideia para um grande espectáculo.

O
Grande Auditório do Centro Cultural de Belém recebeu dia 14 de Novembro, no
âmbito do Misty Fest, pelas 21 horas, um espectáculo de tributo: Joni Mitchell
celebrada pela voz de dez cantoras portuguesas: Aline Frazão, Amélia Muge, Ana
Bacalhau, Cati Freitas, Fábia Rebordão, Luísa Sobral, Mafalda Veiga, Manuela
Azevedo, Márcia e Sara Tavares.
Perante
um auditório semi-lotado mas, devido à dispersão da audiência, aparentemente
confortável, Joining Mitchell cativou
o público que, numa noite de escolhas difíceis (no Coliseu estava Camané com um
concerto previamente esgotado e no pequeno auditório do CCB estava Scott
Matthew com Valter Lobo), quis ver como soava o tributo a uma das mais geniais
criadoras da música popular contemporânea. E soou bastante bem.
Desde
logo pela junção de boas ideias: o tributo em si, o título do espectáculo (Joining Mitchell é, na sua aparentemente
simplicidade, um achado), a escolha das vozes, os músicos (um trio composto por
Filipe Raposo, piano e direcção musical, Carlos Bica no contrabaixo e Carlos
Miguel na bateria), a presença de António Jorge Gonçalves com os seus
estimulantes desenhos ao vivo, ininterruptos, como cenário vivo ao fundo do
palco.
Aliás,
foi com António Jorge Gonçalves a transformar um retrato de Joni num sol de raios
amarelos sobre fundo aquele que a noite começou, com Just like me em off.
Depois começou, digamos assim, o “desfile” das cantoras, pensado de modo a que
se cruzassem no palco, entrando umas, saindo outras, ficando às vezes para
coros ou duetos. Foi, aliás, neste movimento que o concerto foi menos
conseguido, ficando por vezes a sensação de que faltava algo nas ligações. Mas
isso não ensombrou o resto.
Depois
de Aline Frazão, a primeira cantora em palco, ter feito espreguiçar Chelsea morning numa tapeçaria
jazzística, Cati Freitas aconchegou com desenvoltura Borderline e Fábia Rebordão usou a sua voz possante (de fadista)
para carregar a fundo no pedal do rock em Coyote.
Já sentadas, as três cantaram depois, num dos momentos harmonicamente mais bem
conseguidos da noite, The circle game.
Esse
foi o primeiro “round”. Depois, Ana
Bacalhau (dos Deolinda) veio com For the
roses, acompanhada em segunda voz por Amélia Muge, que entretanto se
sentara discretamente do lado esquerdo do palco e, depois, cantou a solo Answer me, my love, a única canção da
noite que não foi escrita por Joni Mitchell (é, aliás uma canção popular alemã
com versão americana e muitas versões) mas faz parte do reportório dela. Por
fim, Manuela Azevedo (dos Clã) avivou Ladies
of the Canyon com os condimentos do seu próprio estilo, e Luísa Sobral, de
guitarra a tiracolo e já com a harpa no palco, deu a California um embalo country (estava previsto que cantasse Goodbye pork pie hat, mas trocou de
canção à última hora).
Marcie, do disco de estreia de Joni
Mitchell (1968), foi transformada em instrumental para que o trio (Filipe
Raposo, Carlos Bica e Carlos Miguel) tivesse ali o seu momento, mas com a letra
presente: vimo-la a ser escrita no cenário por António Jorge Gonçalves, ao
correr da música, sobre um fundo com dois sapatos de mulher num tapete
vermelho.
Depois
de Marcie, Márcia. E uma versão de Woodstock a emergir da melancolia num
crescendo quase épico. Márcia voltou a ouvir-se, desta vez num dueto com Luísa
Sobral, voz e harpa, noutro momento digno de nota: a “natalícia” River. Em seguida, Mafalda Veiga (de
guitarra) apropriou-se, e bem, de Big
yellow taxi e Ana Bacalhau cantou Amelia
enquanto a arte de António Jorge Gonçalves simulava num céu de chumbo e num
avião estilizado a desdita de Amelia Earhart (a pioneira da aviação americana
que desapareceu nas águas do Pacífico e cujo destemor inspirou Joni).
Tal
como na sequência Marcie-Márcia,
também depois de Amelia veio Amélia.
Com Both sides, now, primeiro com
viola braguesa (que ela própria tocou e toca), depois com o piano de Filipe
Raposo, Amélia converteu os “lados” de Joni ao reportório ameliano,
deixando-lhe impressa a expressão pessoalíssima da sua paleta musical.
Quase
a fechar, Sara Tavares veio acelerar o ritmo, primeiro num muito bem conseguido
Help me, em dueto com Aline Frazão, e
depois com Dreamland, polvilhado a
África e soul. No meio, a levitação lírica de A case of you, com Manuela Azevedo no ponto certo. Por fim, já com
todas as cantoras em palco, Free man in
Paris fechou o espectáculo em ambiente de festa e serviu para as
apresentações (as cantoras apresentando-se aos pares e apresentando depois, um
a um, os músicos e demais intervenientes no espectáculo, da produção às luzes e
ao som).
O encore, com o público a aplaudir de pé,
trouxe de novo Just like me mas com
enquadramento novo. No fundo do palco, já sem intervenção gráfica, foi
projectado um vídeo a preto e branco de Joni Mitchell, então com 23 anos, a
cantar Just like me na televisão do
Canadá. E todas as dez cantoras ali, no CCB, a cantarem com ela: no refrão ou
em contrapontos vocais. E em festa.
Se
ali estivesse, Joni Mitchell (hoje com 70 anos) teria gostado. Porque se ela,
ao longo dos tempos, tem regravado as suas próprias canções, acrescentando-lhes
sempre algo de novo, também neste tributo não houve imitações ou réplicas,
antes apropriação criativa por parte de cantoras que deram bom caminho aos
temas que escolheram. Caso lhe dêem nova vida, em palco ou disco, este é
daqueles projectos que merece ter futuro.
(Nuno Pacheco, Tributo
a Joni Mitchell, uma aposta ganha com brio, in Público [Portugal], 17-11-2013. A publicação deste texto insere-se na política
Fair use.)