terça-feira, 23 de agosto de 2011

Joni's Jazz, Califórnia









«Our house, is a very, very, very fine house»
 

«Oh to live on Sugar Mountain»


Topanga Canyon



«But I couldn't let go of L.A., city of the fallen angels»

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Joni Mitchell. Os 40 anos do melhor diário de melancolias

Joni Mitchell, 1971

Umas das mais populares frases de Joni Mitchell reza assim: «Quero a hifenização completa: folk-rock-country-jazz-clássica. Quando o conseguir, talvez os hífenes caiam e tudo se reduza simplesmente a música americana.» Porque sempre teve a mania de fazer tudo e sempre bem, a canadiana conseguiu transformar o seu compromisso de jovem desviada da realidade social, a atirar para o hippie, em obra artística de corpo amadurecido. E Blue, disco editado a 22 de Junho de 1971, foi o começo do fenómeno - não confundir com ‘estreia nos discos’, essa já tinha acontecido mas não estivera ao nível das maravilhas operadas na obra que hoje cumpre quarenta anos.
Desde cedo que Joni Mitchell acumulou mais-valias para ser grande nas coisas da música. Nasceu no Canadá (em 1943), terra fértil em talentos; em pequena sofreu de poliomielite e, tal como Neil Young, aproveitou o tempo perdido e transformou-o em retiro para cantorias e afins; aprendeu a tocar guitarra graças às canções de Pete Seeger; mudou-se para uma cidade grande, Toronto; e casou com um cantor folk, Chuck Mitchell, para depois se divorciar. Passou pelas desventuras urbanas de Nova Iorque e acabou apadrinhada por David Crosby. Vieram canções de génio na voz de outros e, pouco depois, os primeiros álbuns: Song to a seagull (1968), Clouds (1969) e Ladies of the canyon (1970), este último como ensaio para o momento único que foi Blue.
Em 1971, Joni Mitchell coleccionava desilusões. Os Beatles já não existiam. As fantasias hippies e a vontade de protestar à guitarra deixou de ser bom negócio. Estrelas pop morriam cedo e mal. E as dores eram também pessoais, com o fim da relação com Graham Nash como protagonista de tais episódios. O que faz a artista? Deixa de dar concertos, muda-se para a Europa e escreve canções aos magotes. A composição transforma-se no seu diário de bordo e, ao mesmo tempo, num confessionário.
Em Blue, a vida de Joni Mitchell é de todos, com dores de coração e exorcismos do passado (“Little green” é o exemplo maior desta exposição, uma canção inspirada na filha que Mitchell entregou para adopção anos antes) expostos através de um notável exercício poético. A música é crua - guitarras, pianos, dulcimer e pouco mais. Com convidados (Stephen Stills, James Taylor) mas com uma única pessoa a dar nas vistas. Não se ouvem as estruturas habituais da folk, dada a libertinagem da narrativa musicada; mas o improviso também não é jazz nem free-qualquer-coisa. A escrita surgia a caminho de tudo isto, como estava envolvida numa sensibilidade clássica que a tornava aparentemente frágil, mas em tudo coesa e decidida.
Guitarrista genial, compositora pouco dada a regras, Joni Mitchell tornava-se numa das mais importantes artistas do século XX. A autobiografia e a experimentação do formato pop no feminino como nunca antes se tinha ouvido. Para se fazer modelo perante gerações distintas, de Madonna a Feist e a todos os homens que a ouviram. Nome maior da música americana? Que assim seja, sem hífen.

(Tiago Pereira, Joni Mitchell. Os 40 anos do melhor diário de melancolias, in I [Portugal], 22-06-2011. A publicação deste texto insere-se na política Fair use.)

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Fera amansada

Taming the tiger

Autobiográfico ao ponto do delírio, Taming the tiger retoma o convívio de Joni Mitchell com a indústria musical que ela diz detestar. Como sempre, o ponto de partida é a vida que surge como ponto de partida para a composição, mas a vida encarada como ‘história’, ou seja, ficção. Só assim se compreende que a canadiana que recentemente integrou digressões com Bob Dylan e Leonard Cohen junte na sua escrita a figura da mãe asfixiante (“Face lift”) ou os remorsos por ter posto na rua o seu gato depois de este começar a «agir como um animal» e a urinar por toda a casa (“Man from Mars”), passando apenas ao de leve, em “Stay in touch”, pelo reatamento de relações com a sua filha Kilauren, após 35 anos de separação.
Mas Taming the tiger é também o espaço de abertura à «inspiração divina» e de experimentação com um novo modelo de guitarra electrónica que lhe permitiu abrir o leque de sonoridades, aproximando-se de um disco como Wild things run fast, por sinal dos mais fracos e comerciais da sua discografia, com a diferença de que, neste seu novo trabalho, Joni Mitchell «domesticou o tigre», ou seja, a indústria, recusando, em definitivo, qualquer tipo de facilidade, para se dedicar em exclusivo ao inventário das suas experiências pessoais.
Repartindo a sua intervenção pela já citada guitarra, pelos teclados e, ocasionalmente, pelas percussões, dispensando em muitos casos o tradicional acompanhamento de baixo e bateria, Joni Mitchell aposta num som em suspensão que depende dos tapetes de sintetizador e do fraseado, mais afirmativo, do saxofone de Wayne Shorter. As dúvidas instalam-se no modo como toda a lógica pessoal de Joni Mitchell dependeu sempre de um conjunto de regras que começam e acabam no carácter único das vocalizações e que, em última análise, se fecharam sobre si próprias. Taming the tiger afirma-se, deste modo, ‘apenas’ como mais um bom disco da compositora, valor seguro mas incapaz de provocar surpresa ou inquietação. Excelente continua a ser a sua evolução como pintora, revelada na série de quadros reproduzidos na capa, na sequência do que já acontecera com o anterior Turbulent indigo.

(Fernando Magalhães, Fera amansada, in Público - Sons [Portugal], 09-10-1998. A publicação deste texto insere-se na política Fair use.)

Shadows and light

Shadows and light

Sombras e luz. Cegueira e visão. A imagens iniciais mostram James Dean em frente a uma televisão. Imagens extraídas de Fúria de viver, de Nicholas Ray. «Todos os quadros têm sombras e alguma fonte de luz.» Joni Mitchell, recorde-se, desenha e pinta, para além de cantar. Sugere-se um universo pictórico que afinal nunca se chega, neste vídeo, a concretizar.
Filmado e gravado em 1980, Shadows and light centra-se numa actuação ao vivo da cantora canadiana, aqui acompanhada por uma formação de luxo constituída por Pat Metheny (guitarra), Jaco Pastorius (entretanto falecido, baixo), Michael Brecker (saxofone), Don Alias (bateria) e Lyle Mays (teclados).
Ao prazer musical proporcionado pela excelência dos intérpretes e ao reencontro com as palavras que Joni Mitchell, como poucas, tão bem sabe manejar, pouco mais há a acrescentar. Em termos visuais, aparece um coiote a correr desalmadamente pela neve, durante a interpretação de “Coyote”, do álbum Hejira. É muito pouco para uma obra (também) visual, da parte de uma mulher perita em mover-se no universo das imagens. Poderá encontrar-se justificação na tentativa de concentrar todas as atenções na música, mas para isso já existem os discos. Resta então apreciar o rosto luminoso e, nessa época, os caracóis da autora de obras fundamentais como The hissing of summer lawns, Don Juan’s reckless daughter e Mingus, ilustrativas da fase mais jazzística, seguindo uma linguagem que viria a revelar-se ideal para as sinuosidades e diversidade de registos característicos de uma voz e estilo inconfundíveis. Procurem-se aí a luz e sombras a que o título alude.

(Fernando Magalhães, Shadows and light, in Pop-Rock [Portugal], 13-02-1991. A publicação deste texto insere-se na política Fair use.)

Court and spark, Poster de promoção

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