sexta-feira, 4 de junho de 2010
quarta-feira, 2 de junho de 2010
Regresso a casa
Um caso de classe e distinção.
Não fora o lamentável equívoco de Dog eat dog (acesso tardio de comercialite aguda) e seria caso para se dizer que Joni Mitchell nunca erra. Com Night ride home não só não erra como acerta em cheio no alvo. Digamos que a cantora canadiana consegue aqui conciliar a extrema simplicidade dos arranjos com as típicas sinuosidades de um estilo vocal e composicional muito próprio, sem perder de vista uma acessibilidade que não envolve qualquer tipo de concessões.
Longe vão os tempos do jazz, de Mingus e Don Juan’s reckless daughter, ou os labirintos estruturais de The hissing of summer lawns. De regresso à serenidade e ao tom acústico da fase inicial, aquela que culmina em For the roses, ou, já num período de transição, em Court and spark. Night ride home flui com a facilidade das águas de um rio antigo, até ocupar o lugar exacto num universo pacientemente construído, a que se acede sem pressas nem escusadas violências. Joni Mitchell nunca foi, de resto, mulher de perder a cabeça. Mas, se, na aparência, se pode falar em termos de regresso, Night ride home representa, além de tudo o mais, a maturidade e a depuração de um estilo.
Se, por vezes, o seu modo de cantar pareceu difícil e a sua poesia demasiado obscura, agora a música revela-se com a limpidez e o brilho de um diamante perfeitamente lapidado. Entre o som dos grilos numa noite de Verão, de “Night ride home”, e o tom sombrio e despojado de “Two grey rooms”, Joni Mitchell vai aos poucos desvelando o seu universo pessoal, através da poesia e de uma voz que, como em “Passion play”, nos toca como o veludo sobre a pele.
Momentos trágicos, pontuados pelas explosões surdas dos timbalões orquestrais, em “Slouching towards Bethlehem” (baseado no poema “The second coming”, de W. B. Yeats). Momentos mágicos, vividos na Itália de Botticelli e Fellini, trazidos pelos ventos quentes do oboé que a própria Joni toca. Brilho cintilante ainda nas percussões de Alex Acuna, ao longo de todo o disco, e no saxofone de Wayne Shorter, em “Cherokee Louise” e “Ray’s dad Cadillac”. Depois do regresso, de novo a partida.
(Fernando Magalhães, Regresso a casa, in Pop-Rock [Portugal], 27-03-1991. A publicação deste texto insere-se na política Fair use.)
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Joni Mitchell e Janis Joplin, por Kate Walsh
Gosto da Joni Mitchell e da Janis Joplin por diferentes razões. A Janis Joplin era uma performer apaixonada, teve uma vida tão problemática e parecia sempre lançar tanta energia e raiva através das suas canções e concertos. Acho que esse tipo de ligação que uma pessoa pode ter com a música de uma forma tão natural valerá sempre a pena ser recordada. Em relação a Joni Mitchell, adoro-a porque seja lá o que for que ela escreve, seja sobre arrependimento, amor, perda, alegria ou raiva, parece sempre cantar directamente do coração, e é honesta sobre aquilo que escreve. A sua bela voz e as suas letras serão sempre intemporais para mim.
(André Gomes, Kate Walsh, As canções do parque, in Bodyspace [Portugal], 31-01-2005. A publicação deste texto insere-se na política Fair use.)
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sexta-feira, 28 de maio de 2010
Joni Mitchell, agarrando tigre à unha
Pois é, eu vi. E ver Joni Mitchell ao vivo não era um sonho, mais o sonho de um departamento fundamental da minha vida, o de ouvinte.
Os reclames diziam, «Only one day, Bob Dylan and Joni Mitchell, don't you dare miss it», como eu poderia resistir? Viajar para ver Joni e ter que levar no pacote Bob Dylan não se pode chamar de sacrifício.
Cadeira de pista. Binóculo. Máquina fotográfica ruim, com filmes sensíveis e insensíveis. As luzes se apagam e uma voz de americano convida, «Ladies and gentlemen, welcome Joni Mitchell»... Quase fechei os olhos de nervoso, quase gritei de emoção, mas precisava equilibrar o binóculo e, antes dele, meus olhos já transbordados pela imagem que meus ouvidos já conheciam tão bem. Chorei sim, pronto falei, mas nenhum americano viu! Ela adentra o palco do famoso estádio sozinha, com sua guitarra em punho e é recebida de pé por seu público (ou seria o de Bob?). Que alívio, Joni existe. Abre o show com “Big yellow táxi”, sucesso de seu terceiro disco, Ladies of the canyon (1970). Chama então sua banda de quatro músicos, entre eles o ex-marido, Larry Klein.
As afinações abertas e incomuns sempre foram características que a diferenciaram muito na hora de compor e assinar sua sonoridade. Suas canções, mesmo as de mais fácil assimilação, passam longe do banal ou previsível. Ama música. Detesta, abomina mesmo, o contexto que envolve a música. Os anos oitenta, segundo entrevista recente, foram terríveis para ela, por isso mesmo cogitou seriíssimamente a possibilidade de parar de vez e se dedicar à pintura que, por incrível que pareça, foi sua paixão primeira, inclusive várias capas de seus álbuns foram e continuam sendo reproduções de suas pinturas. Surpreendentemente revela que seu (re)entusiasmo pela produção musical, se deveu muito ao fato de ter sido apresentada ao sintetizador VG 8 (virtual guitar), da Roland, que a vi usando no show. Acoplado à uma guitarra, lhe permite programar digitalmente as afinações, tornando fácil o que era motivo de caos, mudar as afinações apertando apenas um ou dois botões.
Deleite total quando tocou “Just like this train” e “Free man in Paris”, do antológico Court and spark (1974), sem falar na comoção de poder ouvir ao vivo “Amélia”, antes registrada em show (Shadows and light, 1980), por ninguém menos que Jaco Pastorius, Pat Metheney, Michael Brecker, Don Alias e Lile Mays, ufa, essa quase me matou.
A voz está mais grave, já não se ouve aquele pássaro cristalino dos álbuns Clouds [1969] ou Blue [1971], acredito que um pouco pelo tempo, um pouco pelo cigarro, mas o timbre e a personalidade estão presentes, sempre acompanhados de muita consciência e sensibilidade musical raras. Não me bateu aquela melancolia que eu sinto, quando ouço um intérprete que já não conhece a voz que tem e tenta evocar o passado inutilmente. Joni continua sendo um instrumento ela mesma. Cantou “Sex kills” e “The Magdalene laundries”, do penúltimo e elogiado Turbulent indigo (1994, vencedor de um Grammy), “Night ride home”, que é título de um outro álbum e algumas do mais recente, Taming the tiger [1998], sofisticadas e cheias de opiniões contundentes, ela mesma já declarou, «todos os meus álbuns são catárticos». Dizem que este «tigre» a que ela se refere é justamente este contexto nada artístico que ronda a música. Mídia, mercado, pré-conceitos e artificialidades.
Para o bis, volta de novo sozinha e canta seu hino “Woodstock”, conhecidíssima também pela gravação de seus companheiros de geração, Crosby, Stills, Nash and Young, no álbum Déjà vu [1970], acompanhada de aplausos e palavras de ordem após cada verso. Comovente, inesquecível.
Não quero mentir, lá no fundo acalentava o desejo de ouvir um certo violão de aço, mas a voz, a presença, harmonias, letras e humanidades de Joni preencheram todos os vazios das minhas expectativas, «God only knows...» «O que não te mata, te fortalece». (J.M.)
Joni está inteira, bem viva e sua música será forte pra sempre.
*Ah, o Bob Dylan! Competentíssimo, delicioso, ele era, na verdade, a atração principal da noite e tenho uma declaração bombástica a fazer, quando canta em casa, ele até sorri!
(Zélia Duncan, Joni Mitchell, agarrando tigre à unha, in Jornal do Brasil [Brasil], 12-1998. A publicação deste texto insere-se na política Fair use.)
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sábado, 22 de maio de 2010
Semana Joni Mitchell
O webzine estadounidense For folk’s sake, dedica esta semana à cantora e compositora Joni Mitchell. Encontram-se já disponíveis textos sobre os álbuns Clouds, Blue, For the roses e Both sides now; e outros de âmbito mais diverso.
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